sexta-feira, 30 de maio de 2014

Cristãos Modernos Falando em Línguas Estranhas?

Por Robson de Andrade Neves
Advogado em São Paulo, Pós-Graduado em Direito Constitucional e Administrativo, Palestrante e Membro da Comissão de Direito Constitucional da Ordem dos Advogados em São Paulo.

No Antigo Testamento é possível perceber severa exortação sobre os profetas e sacerdotes de Efraim, que tinham sobre seus lombos a responsabilidade das coisas do alto, sobretudo a orientar o povo acerca da vontade de Deus para o bem geral.

A soberba dos profetas e sacerdotes que andavam errantes nas visões e no juízo por causa da bebida forte fez com que o Senhor tecesse fortíssimas palavras contra eles, as quais podem ser vistas do livro de (Isaias 28):

“Ai da coroa de soberba dos bêbados de Efraim, cujo glorioso ornamento é como a flor que cai, que está sobre a cabeça do fértil vale dos vencidos do vinho. Eis que o Senhor tem um forte e poderoso; como tempestade de saraiva, tormenta destruidora, e como tempestade de impetuosas águas que transbordam, ele, com a mão, derrubará por terra. A coroa de soberba dos bêbados de Efraim será pisada aos pés. E a flor caída do seu glorioso ornamento, que está sobre a cabeça do fértil vale, será como o fruto temporão antes do verão, que, vendo-o alguém, e tendo-o ainda na mão, o engole. Naquele dia o Senhor dos Exércitos será por coroa gloriosa, e por diadema formosa, para os restantes de seu povo. E por espírito de juízo, para o que se assenta a julgar, e por fortaleza para os que fazem recuar a peleja até à porta. Mas também estes erram por causa do vinho, e com a bebida forte se desencaminham; até o sacerdote e o profeta erram por causa da bebida forte; são absorvidos pelo vinho; desencaminham-se por causa da bebida forte; andam errados na visão e tropeçam no juízo. Porque todas as suas mesas estão cheias de vômitos e imundícia, e não há lugar limpo. A quem, pois, se ensinaria o conhecimento? E a quem se daria a entender doutrina? Ao desmamado do leite, e ao arrancado dos seios? Porque é mandamento sobre mandamento, mandamento sobre mandamento, regra sobre regra, regra sobre regra, um pouco aqui, um pouco ali. Assim por lábios desconhecidos, e por outra língua, falará a este povo. Ao qual disse: Este é o descanso, dai descanso ao cansado; e este é o refrigério; porém não quiseram ouvir.”

Da passagem acima, percebe-se que os profetas e sacerdotes utilizavam de métodos bastante formalistas para orientar e julgar as causas cotidianas do povo, a letra, as regras e a utilização do silogismo textual (um pouco aqui um pouco ali), foi fortemente combatido pelo Senhor, pois, no lugar da revelação divina das escrituras, utilizavam do método morto e pouco espiritual da letra fria da lei por causa dos efeitos da bebida forte, o que era considerado terrível aos olhos do Senhor pela ausência da inspiração divina.

Imbuído de revolta face aquele desastroso cenário encontrado pelo Senhor, em que os profetas e sacerdotes viviam errantes na condução do povo de Efraim, por ocasião da bebida forte, que ao invés da inspiração e revelação divina se utilizavam do conhecimento formal para profetizar e ensinar o povo, Isaias então profetiza que no futuro se ouviriam até mesmo falar em línguas desconhecidas e outras línguas, a ver aquele método carnal utilizado pelos representantes de Deus em Efraim.

Essa profecia foi cumprida nos livros de (Atos 2 e 1 Coríntios 1:14), onde se identifica que homens e mulheres receberam um “dom” ou a capacidade de falar em línguas desconhecidas e em outras línguas, conforme será melhor contextualizado no decorrer deste trabalho.

O primeiro evento que cumpriu aquela profecia de (Isaias 28) ocorreu em Pentecostes, poucas semanas após a ressurreição de Jesus Cristo, sendo que naquele dia, cerca de 120 discípulos de Cristo “ficaram cheios do Espírito Santo e começaram a falar em outras línguas” e todos que estavam ouvindo os pregadores, inclusive aqueles visitantes de outros países ficaram perplexos, pois ouviam falar em suas próprias línguas. (Atos 1:15 e 2:1-6).

"1. E, cumprindo-se o dia de Pentecostes, estavam todos concordemente no mesmo lugar; 2. E de repente veio do céu um som, como de um vento veemente e impetuoso, e encheu toda a casa em que estavam assentados. 3. E foram vistas por eles línguas repartidas, como que de fogo, as quais pousaram sobre cada um deles. 4. E todos foram cheios do Espírito Santo, e começaram a falar noutras línguas, conforme o Espírito Santo lhes concedia que falassem. 5. E em Jerusalém estavam habitando judeus, homens religiosos, de todas as nações que estão debaixo do céu. 6. E, quando aquele som ocorreu, ajuntou-se uma multidão, e estava confusa, porque cada um os ouvia falar na sua própria língua. 7. E todos pasmavam e se maravilhavam, dizendo uns aos outros: Pois quê! não são galileus todos esses homens que estão falando? 8. Como, pois, os ouvimos, cada um, na nossa própria língua em que somos nascidos? 9. Partos e medos, elamitas e os que habitam na Mesopotâmia, Judéia, Capadócia, Ponto e Asia, 10. E Frígia e Panfília, Egito e partes da Líbia, junto a Cirene, e forasteiros romanos, tanto judeus como prosélitos, 11. Cretenses e árabes, todos nós temos ouvido em nossas próprias línguas falar das grandezas de Deus. 12. E todos se maravilhavam e estavam suspensos, dizendo uns para os outros: Que quer isto dizer? 13. E outros, zombando, diziam: Estão cheios de mosto. 14. Pedro, porém, pondo-se em pé com os onze, levantou a sua voz, e disse-lhes: Homens judeus, e todos os que habitais em Jerusalém, seja-vos isto notório, e escutai as minhas palavras. 15. Estes homens não estão embriagados, como vós pensais, sendo a terceira hora do dia.  16. Mas isto é o que foi dito pelo profeta Joel: 17. E nos últimos dias acontecerá, diz Deus, Que do meu Espírito derramarei sobre toda a carne; E os vossos filhos e as vossas filhas profetizarão, Os vossos jovens terão visões, E os vossos velhos sonharão sonhos; 18. E também do meu Espírito derramarei sobre os meus servos e as minhas servas naqueles dias, e profetizarão [...]."

Cabe aqui um esclarecimento de extrema importância para a compreensão do tema. No contexto de Atos dos Apóstolos, em especial no evento de pentecostes, é possível perceber que Pedro e os outros apóstolos estavam pregando o evangelho aos “gentios” e aos “não convertidos”, e dentre eles, diversos visitantes estrangeiros, que ficaram perplexos por ouvir a pregação em suas próprias línguas.

O falar “em outras línguas” se revelou importante apoio divino para o crescimento do evangelho, sobretudo para que os incrédulos cressem (1 Coríntios 14:22), pois, o milagre de falar em outras línguas era uma indicação de que os cristãos tinham a aprovação e o apoio de Deus.

Assim, a ordem de Jesus aos seus apóstolos de que “deveriam fazer discípulos em todas as nações” (Mateus 28:19 e Atos 1:8) só seria possível por ocasião do milagre de falar em outras línguas, ou em outros idiomas.

Isso porque, muitos daqueles cristãos eram “indoutos” e “comuns” (Atos 4:13) e se não fosse o milagre de falar em outras línguas, como poderiam pregar em lugares distantes onde se falavam em outros idiomas que talvez jamais tivessem ouvido? Por isso, que no evento de pentecostes o Espírito Santo concedeu a alguns o “dom” milagroso de pregar com grande influência em idiomas que eles nunca tinham aprendido.

Veja, portanto, que a compreensão do texto de (Atos dos Apóstolos) não se refere em falar em “línguas desconhecidas”, mas falar em “outras línguas” ou outros idiomas, com o fim de indicar o apoio divino e conversão dos incrédulos pela ocasião do milagre. Diferentemente da contextualização de (1 Coríntios 14), em que o apóstolo Paulo exorta a Igreja para que utilizem o "dom" de falar em "línguas desconhecidas" com a finalidade exclusiva de sua edificação, e não de pregação, conforme se passa a demonstrar.

Na ocasião, o apóstolo Paulo falava a congregação cristã em Corinto sobre o assunto de falar em  “línguas desconhecidas", ele estava exortando a Igreja, ou os já convertidos para que abundassem neste "dom" e, em experiência individual, buscassem uma maior intimidade com Deus pela ocasião de falar em "línguas desconhecidas" para que resultasse numa pregação do evangelho, verdadeiramente, edificante a Igreja, não mais baseado em conhecimento humano, como ocorreu em Efraim, mas por palavras entendíveis e inspiradas pelo próprio Criador, como pode ser observado: 

“1 Ainda que eu falasse as línguas dos homens e dos anjos, e não tivesse amor, seria como o metal que soa ou como o sino que tine. (1 Coríntios 13:1) 2 Porque o que fala em língua desconhecida não fala aos homens, senão a Deus; porque ninguém o entende, e em espírito fala mistérios. 12 Assim também vós, como desejais dons espirituais, procurai abundar neles, para edificação da igreja. 13 Por isso, o que fala em língua desconhecida, ore para que a possa interpretar. 15 Que farei, pois? Orarei com o espírito, mas também orarei com o entendimento; cantarei com o espírito, mas também cantarei com o entendimento. 26 Que fareis pois, irmãos? Quando vos ajuntais, cada um de vós tem salmo, tem doutrina, tem revelação, tem língua, tem interpretação. Faça-se tudo para edificação. 28 Mas, se não houver intérprete, esteja calado na igreja, e fale consigo mesmo, e com Deus. 39 Portanto, irmãos, procurai, com zelo, profetizar, e não proibais falar línguas.”

Uma primeira observação se faz quando, ao orar em línguas desconhecidas, inteligíveis, ou dos anjos, fala-se coisas das quais a inteligência humana é incapaz de compreender. Assim como orar em espírito, é falar com Deus e a alma que é inferior também não entende (Teoria dualista).

Do texto acima, verifica-se que o apóstolo Paulo ensina, sobretudo, que o falar em língua desconhecida decorre de uma íntima relação com Deus, no momento da busca pelo Espírito Santo por meio da oração, momento este particular do fiel que servirá para edificação da Igreja através de uma pregação inspirada pelo próprio Deus, conforme consta do livro de (Romanos 8:26) que afirma que o “Espírito Santo intercede por nós em razão de não sabermos expressar como convém.”

Ainda, em (Tiago 3:8) pode ser observado que “nenhum homem pode controlar a língua”, a não ser que seja batizado com o Espírito Santo, quando então manifestará os frutos do Espírito, inclusive o domínio da língua (Gálatas 5:19 a 22).

Assim, se o Espírito Santo nos ajuda a dominar a língua, certamente num momento de íntimo relacionamento com Ele se fará possível à fala de uma língua inteligível, língua essa denominada pela própria bíblia que é dos anjos (1 Coríntios 13:1).

Diferentemente do que muitos afirmam, o falar em língua desconhecida, em nada tem a ver com a pregação do evangelho, trata-se de um “dom” não estendido a todos, mas apenas aqueles que se elevam de tal maneira na oração e adoração a Deus, quando o próprio Espírito Santo o santifica através do milagre de falar em língua dos anjos (1 Coríntios 14:12).

Portanto, é importante observar que todos os dons do Espírito Santo, ou milagres, só acontecem aos que creem, pois aqueles que racionalizam as coisas do alto, sem, no entanto, praticar a fé, deixam de experimentar e se maravilhar das coisas sobrenaturais, como ocorreu na cidade de Nazaré, cidade de nascimento de Jesus "E não fez ali muitos milagres, por causa da incredulidade deles" (Mateus 13:58).

Nessa passagem, apesar de reconhecerem, de certa forma, o poder de Jesus naquele lugar (Mt. 13:54 e 55), não O deram a devida honra e nem creram verdadeiramente Nele, antes preferiram se escandalizar com a forma que Jesus pregava e praticava a fé, ridicularizando-O a ponto até mesmo de criticá-lo: "E escandalizavam-se Nele. Jesus porém, lhes disse: Não há profeta sem honra, senão na sua terra e na sua casa" (Mt. 13:57). 

Ora, não é isso que acontece atualmente com os incrédulos? Até mesmo com os pseudo cristãos geladeira? Que não praticam a fé, mas gastam tamanha energia para criticarem e ridicularizarem os ministérios praticantes da fé sobrenatural? Que ridicularizam os cristãos que creem, por exemplo, no "dom" das línguas celestiais?

O próprio apóstolo Paulo, não obstante exortar a Igreja para que fossem discretos na congregação quando falassem em línguas desconhecidas, jamais proibiu os fiéis de buscarem referido dom (1 Corintios 14:39).

Quem um dia teve a experiência de falar em língua desconhecida por ocasião da intercessão do Espírito Santo não pode se considerar mais espiritual ou mais santo do que os demais que ainda não experimentaram do referido dom, considerando que até mesmo o diabo também pronuncia a língua dos anjos.

Deus age com propósitos e Ele sabe por que algumas pessoas falam em línguas desconhecidas e outras não. Deus é soberano e Ele opera como bem quiser e quem somos nós para questionar o direito dos dons.

Por fim, apenas para arrematar a ideia de que existe sim na Igreja Moderna o dom de falar em línguas desconhecidas ou a língua dos anjos, é a refutação da tese contrária pela própria compreensão do texto bíblico em (1 Coríntios 14:13), senão vejamos: “Por isso, o que fala em língua desconhecida, ore para que a possa interpretar.”

Assim, a revelação das línguas celestiais, ou desconhecidas só podem ser compreensíveis por meio exclusivo da oração (“ore para que possa interpretar”) e não por meio de estudo, pois, do contrário, o apóstolo Paulo mandaria os agraciados pelo “dom” de falar em “línguas desconhecidas” a frequentarem uma escola de idiomas da “fisk” na Galiléia e não a orarem para sua compreensão. Portanto, que os incrédulos de plantão pensem nisso! 

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