segunda-feira, 26 de maio de 2014

Ecumenismo como um Sistema Universal Democrático

Por Robson de Andrade Neves
Advogado em São Paulo, Pós-Graduado em Direito Constitucional e Administrativo, Palestrante e Membro da Comissão de Direito Constitucional da Ordem dos Advogados em São Paulo.


A ideia da pluralidade de pensamentos e crenças tem origem histórica desde os primórdios da sociedade antiga, sistemas antigos existentes no seio da sociedade como o ecumenismo já personificava um acanhado sistema de tolerância e pluralidade de pensamentos por parte dos poderes da época, não obstante a sua conceituação ter se distanciado e muito de sua compreensão originária no decorrer da história.

Originalmente a palavra ecumenismo era entendida pelos gregos a partir de duas palavras substantivos, quais sejam: (oikos), cujo significado é habitação, casa, família, habitantes de casa, descendência, estirpe, vivenda, povo ou aposento e (meno), cujo significado é: ficar, permanecer, esperar, persistir, continuar a ser, a existir, a substituir. [1]

Nesse sentido, é possível perceber que o significado da palavra ecumenismo, até então, era empregada para sistematizar [2] pacificamente a existência da diversidade humana, resultante das crenças, dos pensamentos e até mesmo de comportamentos de um determinado povo da época, circunscritos em um determinado território, referida ideia era amplamente disseminada pelos filósofos gregos (Heródoto, Demóstenes e Aristóteles).

O ecumenismo, portanto, era empregado pelos gregos com o objetivo de demonstrar ao mundo o domínio dos helênicos[3] dentro dos seus limites territoriais demarcados, significando que aquela parte da terra era dominada e habitada pelo povo grego.

Com o caminhar do desenvolvimento histórico, referido termo passou a designar o império de Alexandre o Grande, a partir do século IV, que demarcara os territórios gregos até as margens do Egeu e às margens do Rio Indo. [4]

O ecumenismo, como compreensão de um sistema pacífico interno de um povo pluralista e subordinado ao poder regente, também foi utilizado por Roma, para descrever o seu domínio (Lc 2.1)[5] mundial do ponto de vista político-ideológico sob o crivo da Pax Romana. [6]

A partir de Roma, o sentido do ecumenismo já não podia ser mais entendido como um sistema de união pacífica da pluralidade de um povo, isso porque, a Pax Romana [7] não tinha qualquer pretensão de unir pacificamente os diferentes, mas, compreendia-se a expansão de seu império sobre os povos vencidos dentro de uma ordem nos limites do domínio, que simbolizada a própria força de guerra face às invasões bárbaras e insurreições dentro do território imperado. [8]

Avançando na historia da sociedade, o ecumenismo como um sistema religioso paralelo de transformação em uma única unidade pacifica da pluralidade de crenças, passou a ganhar novos contornos democráticos, sobretudo depois da constituição da Aliança Evangélica em Londres, em 1846, com entidades das mais diversas liturgias, cujo propósito fora a constituição do “Concílio Ecumênico Evangélico Universal”.

O fundador da Cruz Vermelha [9], um dos pioneiros da Associação Cristã dos Moços, Henry Dunant, pregava que essa associação tinha que ser “ecumênica” devendo propagar o espírito ecumênico transcendente a nacionalidade, língua e denominações em questões eclesiásticas, classe e a profissão [10], sendo referido objetivo surreal diante das novas perspectivas.

Mas somente com o advento das discussões de “Fé e Constituição” e “Vida e Ação” é que o significado ao termo “ecumenismo” chegará à compreensão adotada dos dias atuais. [11]

Nathan Soderblon,[12] arcebispo luterano, durante a primeira Guerra Mundial, semeou a ideia de uma reunião internacional de entidades religiosas de cunho estritamente ecumênico para discussão de diversas temáticas, com o objetivo principal de promover e resolver definitivamente a paz mundial no que tange as guerras santas e religiosas espalhadas mundo afora.[13]

Mais para frente o ecumenismo apresentará uma nova concepção resultante de uma relação amistosa entre entidades religiosas espalhadas no mundo a fim de resolver definitivamente a paz religiosa mundial. [14]

O ecumenismo somente passou a se tornar tema com grandes discussões a nível mundial na Conferência de Estocolmo, em 1925, com concessão plena dos alemães, franceses e suecos, não obstante a resistência dos ingleses que ainda mantinham a compreensão de concílios ecumênicos.

Mas somente após a Conferência de Oxford, em 1937, é que o ecumenismo passou a ser compreendido mundialmente como a unificação de todas as denominações religiosas mundiais para formação de uma Igreja Una e Santa. [15]

Observa-se que o Conselho Mundial das Igrejas, fundado em Amsterdã, em 1948, passou a ser um sistema de ingerência para inclusão religiosa internacional, com designação do Conselho Mundial de Igrejas, tem como objetivo principal a reconciliação das mais diversas denominações religiosas espalhadas no mundo para “universidade do cristianismo para que o mundo creia”.

O ecumenismo como um sistema poderoso de inclusão e unificação internacional de igrejas separadas, mas unidas por laços embrionários reconstruídos pela aderência ao sistema, constitui-se verdadeiro sistema democrático da diversidade religiosa protegida pela unidade “ecumênica” com objetivos claros de pacificação religiosa em um único sistema pacificador do dissenso.

O Conselho Mundial das Igrejas mostrou que seu objetivo principal é a unificação pacífica de todas as religiões do mundo, um sistema que foi criado, não por mera coincidência, em 1948, ano da promulgação da Declaração Universal dos Direitos Humanos, impulsionado pela eclosão da II Guerra Mundial, que fez avançar discussões sobre a paz mundial focado na individualidade das escolhas, sobretudo da liberdade religiosa.

Lá em 1910, na Conferência Missionária de Edimburgo, na Escócia, já se tinha tematizado fortemente o direito a liberdade religiosa. Depois, na primeira assembleia de fundação ocorrida em Amsterdã, na Holanda, agora em 1948, o Conselho Mundial de Igrejas reiterou os diversos apontamentos ao reconhecimento dos Direitos Humanos, deixando claro que este tema é o cerne das questões para uma nova ordem mundial harmoniosa, justa e pacífica.

Veja, portanto, que a relação direta do poder democrático e de influência mundial do sistema ecumênico ficou patente, em 1948, com a intermediação do Dr. Frederik Nolte, o qual, posteriormente, tornou-se diretor geral da comissão do Conselho Mundial de Igrejas para assuntos internacionais, que juntamente com seus colaboradores, diplomatas e especialistas da ONU, ofereceu a formulação do texto sobre a liberdade religiosa, elaborada no na conferência do Conselho Mundial das Igrejas, ocorrido em Amsterdã, o qual foi integralmente aceita e finalizada na redação do art. 18 da Declaração Universal dos Direitos Humanos, que assim prescreve:

Artigo XVIII. Toda pessoa tem direito à liberdade de pensamento, consciência e religião; este direito inclui a liberdade de mudar de religião ou crença e a liberdade de manifestar essa religião ou crença, pelo ensino, pela prática, pelo culto e pela observância, isolada ou coletivamente, em público ou em particular (ONU, 1948).


Portanto, atualmente, o ecumenismo religioso, que reiteradamente é discutido nas conferencias mundiais, revela-se como um sistema poderoso de cooperação com as organizações internacionais para positivação dos direitos humanos, ele reconhece a pluralidade humana, incluindo aqueles que não professam qualquer tipo de fé, pois estes há tempo anseiam pela sistematização mundial para promoção da paz e convivência pacífica dos povos, em âmbito externo e interno.

Isso porque, a violação dos Direitos Humanos é percebida cada vez mais em razão da rápida globalização das economias mundiais. Acrescentemos a isso o aumento da diversidade de pensamentos, grandes conflitos internos resultante da crescente discriminação de grupos, do extremismo religioso e patriotismo demasiado em muitas nações.

O sistema ecumênico atual (http://www.oikoumene.org/en) conta com centenas de religiões aderentes espalhadas pelo mundo afora, cujo objetivo principal é a luta pela cessação dos conflitos religiosos, quer seja no campo das liturgias, doutrinas e até mesmo da fé.  

Percebe-se, portanto, o tamanho da responsabilidade que pesa sobre os ombros daqueles que se encontram comprometidos com a promoção e defesa dos direitos humanos e da dignidade da pessoa humana em todos os aspectos de vida do indivíduo numa sociedade pluralista.




[1]  RUSCONI, Carlo. Dicionário do Grego do Novo Testamento. São Paulo: Paulus, 2003. p. 301-302.
[2]  Sistema: s.f. Reunião de princípios coordenados de modo a formar uma doutrina: o sistema filosófico de Descartes. Combinação de partes que, coordenadas, concorrem para certo fim. Forma de organização administrativa, política, social ou econômica de um Estado: sistema eleitoral francês. Dicionário online de Português:  http://www.dicio.com.br/sistema/

[3]  Domínio dos Helênicos: Designa-se por período helenístico (do grego, hellenizein – "falar grego", "viver como os gregos") o período da história da Grécia e de parte do Oriente Médio compreendido entre a morte de Alexandre o Grande em 323 a.C. e a anexação da península grega e ilhas por Roma em 146 a.C.. Caracterizou-se pela difusão da civilização grega numa vasta área que se estendia do mar Mediterrâneo oriental à Ásia Central. De modo geral, o helenismo foi a concretização de um ideal de Alexandre: o de levar e difundir a cultura grega aos territórios que conquistava. Foi naquele período que as ciências particulares tiveram seu primeiro e grande desenvolvimento. Foi o tempo de Euclides e Arquimedes. O helenismo marcou um período de transição para o domínio e apogeu de Roma. Esclarecimentos disponíveis no Wikipedia: http://pt.wikipedia.org/wiki/Per%C3%ADodo_helen%C3%ADstico
[4]  RUSCONI, 2003, p. 328; NAVARRO, 1995, p. 10; SANTA ANA, Júlio H. Ecumenismo e libertação. 2. ed. Petrópolis: Vozes, 199. p. 17.
[5]  NAVARRO, 1995, P. 10.
[6]  SANTA ANA, Júlio H. Ecumenismo e libertação. 2. ed. Petrópolis: Vozes, 199. p. 18.
[7]  A Pax Romana, expressão latina para "a paz romana", é o longo período de relativa paz, gerada pelas armas e pelo autoritarismo, experimentado pelo Império Romano que se iniciou quando Augusto, em [28 a.C.], declarou o fim das guerras civis e durou até o ano da morte de Marco Aurélio, em 180 d.C. Este termo enquadra-se historicamente nos dois primeiros séculos do Império Romano, instaurado em 27 a.C. por Augusto. Neste período, a população romana viveu protegida do seu maior receio: as invasões dos bárbaros que viviam junto às fronteiras, o limes. Pax Romana era uma expressão já usada na época, possuindo um sentido de segurança, ordem e progresso para todos os povos dominados por Roma. Tem maior expressão nas dinastias imperiais dos Flávios (68-96) e dos Antoninos (96-192). Plínio, o Velho realçava já a "imensa majestade da paz romana, essa dádiva dos deuses que parece ter trazido os Romanos ao mundo para o iluminar. Esclarecimento disponível em Wikipédia: http://pt.wikipedia.org/wiki/Pax_Romana
[8]  GREEN, Michael. Evangelização na igreja primitiva. 2 ed. São Paulo: Vida Nova, 2000. p. 12-14.
[9] O Movimento Internacional da Cruz Vermelha e do Crescente Vermelho é um movimento internacional humanitário com aproximadamente 97 milhões de voluntários mundialmente. Seu objetivo é proteger a vida e a saúde humana, e prevenir e aliviar sofrimento humano, sem discriminação baseado em nacionalidade, raça, sexo, religião, classe social ou opiniões políticas. Esclarecimentos disponíveis no Wikipédia: http://pt.wikipedia.org/wiki/Movimento_Internacional_da_Cruz_Vermelha_e_do_Crescente_Vermelho

[10]  NAVARRO, 1995, p. 11.
[11]  NAVARRO, 1995, p. 11.
[12]  Lars Olof Jonathan (Nathan) Söderblom (Söderhamn, 15 de janeiro de 1866 — Uppsala, 12 de julho de 1931) foi um teólogo protestante e arcebispo sueco. Recebeu o Nobel da Paz de 1930, por sua dedicação em prol do ecumenismo e da paz universal. Esclarecimento disponível no Wikipédia: http://pt.wikipedia.org/wiki/Nathan_S%C3%B6derblom
[13]  NAVARRO, 1995, p. 11.
[14]  NAVARRO, 1995, p. 11.
[15]  NAVARRO, 1995, p. 11-12.

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